Vender — e comprar — automóveis usados exige mais que interesse, conhecimento, técnica e, às vezes, arte. Há, às vezes, jogos de palavras, descrições imprecisas, verdades e mentiras flexíveis. Também, textos e gentes a arranhar os códigos civil, penal, do consumidor. É mandatório tino para interpretar, competência para aclarar. A internet, com seus portais ganhando espaço como mídia para vendas, e o tradicional anúncio classificado em jornais, têm muitas propostas neste sentido. Se interessado, um pequeno glossário sobre os verbetes e termos mais utilizados para ajudar a entender a hábil terminologia.
  

Bem calçado – síntese de pneus quase novos ou em bom estado.

Carro de colecionador – O vendedor não é do ramo, mas acha ser argumento sensibilizante para gente que também não é, mas quer ser. Ou seja, o carro pouco importa, e vale o tentar vendê-lo, por valor superior, ao ligado ao mercado dos usados.

Carro de médico – Rótulo intenta ser interpretada como elogiativo e valorativo. Entretanto, nunca descobri qual o vínculo entre os profissionais de branco e quais suas qualidades adicionais podem aspergir sobre um veículo usado. Tirando automóveis de origem nipônica do Dr. Carlão Freitas, o meu cardiologista, a conduzir como um canadense — os mais cuidadosos motoristas do mundo —, o restante trabalha muito, vai de um lado para outro, pula de emprego em emprego, pára de qualquer maneira; não tem tempo de aquecer motor; muito menos para manutenção. Para mim o rótulo desmerece e desvaloriza — menos, claro, os carros do Carlão. 
Carro de Mulher – Teoricamente um atributo aplicado como valorizador. Mas sobre a origem feminina há controvérsias e no atual leque de classificação de gêneros abre-se caminho com variáveis que me escapam. O produto original é, no usual, mais cuidadoso que homens para dirigir e manter veículos.
Se a classificação se amplia, o resultado também, e assim as há, e a elas sempre ligados comportamentos que em nome da paz de convívio são usualmente olvidados como, por exemplo, o descompromisso com a troca do óleo lubrificante do motor; rodas desalinhadas de raspar meio-fio; embreagem em fim de vida por excesso de esquecimento do pé no pedal; inacreditável porcariada sob os tapetes, entre encosto e assento dos bancos, o motor tem a pior aparência possível, estas coisas da superioridade feminina. 
Completo, fullEntenda como o vendedor não sabe qual a listagem total de opcionais e usa o termo como atrativo. Interessado, informe-se para saber a extensão dos acessórios e equipamentos integrando o veículo para não pagar pelo inexistente. O rótulo full cumpre o mesmo objetivo. E por aí está full de gente sem intimidade sequer tópica com o léxico inglês, jurando estar full o veículo anunciado, sem saber qual a listagem de acessórios originais para aquela marca, modelo, ano.

Consulte – Ao final do anúncio, você interessado procura o preço, e lá encontra – Consulte. Na prática significa dizer o preço varia de acordo com o cliente, e não será dado por telefone, exigindo visita onde, de princípio, o interessado será avaliado. Assim, seja jeitoso, sem roupa de grife, chegue a pé, fale linguagem de Mobral, não se meta a deitar conhecimento no assunto.

Defeitos estão à vista - Lembre-se da piada — verdadeira — do capiau vendendo égua de boa aparência e conformação ao citadino fazendeiro de final de semana: “ – É boa, dotô. Todos us defeitu tá na vista.“ Claro, o interessado comprou o formoso animal e se tornou proprietário de égua cega… Em carro usado é a mesma coisa. Só deve ser comprado sob iluminação intensa da luz do dia, depois de inspeção sob poderosa lupa, porque pode encobrir caso de duas metades de carro soldadas para virar um; grandes cacetadas em sólidos e deformantes objetos, carros tortos. Se você não viu o defeito, azar o seu. Ele existe e foi mencionado. Saia desta. Jornalista Boris Feldman, pelo nome familiar com único n, sabido como todo judeu, recomenda levar um imã e passar pela lataria. Se em algum ponto o artefato magnético deslizar com mais facilidade, será indicativo de haver boa quantidade de massa encobrindo irregularidades não corrigidas.
 
Desocupar garagem – Você vai crente tratar-se de um veículo bem tratado, o tempo todo protegido das intempéries e agentes externos, possivelmente com baixa quilometragem e trato proporcional a quem tem garagem. Nada disto. Você encontra um escombro abandonado, pneus deformados, motor travado, montes de porcarias em cima, um cachorro de mau relacionamento social, com domicílio formal no banco traseiro. Ou você encontra um carro gasto, desalinhado, de uso desidioso, valor inferior ao conserto, permitindo a dúvida: não foi levado para ali apenas para ser vendido com uma certa respeitabilidade — algo como nos anúncios de objetos usados apresentados como Família de Diplomata mudando-se para o exterior vende...

Dívida no Detran – Usualmente um automóvel pelo qual você pagará para ter duas dores de cabeça. A primeira com o montante de gastos para regularizar a situação, com dívidas de desconhecido montante. Outra, a conta do Detran não tem a obrigatória dignidade no trato com o contribuinte, garantindo eventual débito até a data — sem compromisso quanto às que podem ser apuradas depois — depois de fechar o negócio... Em ambos os casos, o caos intencional dos despachantes, onde para cada uma das infindáveis operações é preciso um jeitinho, um quebra-galho, um por-fora. Consulte um advogado para saber quantos pontos negativos irão para o seu prontuário quando você assumir as infrações.

DUT em branco – Não me ocorre nada mais complicado numa transação de carros usado, feita entre particulares. Na prática indica a expressão que traz implícita o seguinte: "– Não conheço o dono anterior; não sei como achá-lo para reconhecer a firma; nada tenho com isto; azar o seu".
 ... e sem multas – mesmo que Dívida no Detran.

Filé – Quer dizer o melhor — pelo menos a compradores não vegetarianos.

Filmado – Não significa ter sido personagem de algum filme referencial, mas tão somente possui película nos vidros, gerador de cuidado adicional, o de saber se tal aposição se enquadra nos parâmetros legais, e gasto de numerário e tempo para remover este implemento, um atrapalho para dirigir à noite.

Kit Beleza – Conceito questionável para dizer o dono aplicou alguns penduricalhos desnecessariamente ociosos, como spoilers, aerofólios, tapetes em alumínio, imitando piso de ônibus, estas bobagens.

Melhor oferta – Valor menor ao seu oferecimento. É a dor de cabeça mais cara e desnecessária. Na lógica de balcão, para o dono, nada vale — e qualquer oferta será lucro.

Menor taxa – Diz-se para o financiamento. Exige tanto um levantamento na praça quanto atenção na metodologia da conta. Faça simulações pela internet em sítios das fabricantes para ter idéia de quanto representa o financiamento em termos de valor, prazo, prestações. E, na negociação, peça um espelho da conta, para saber se os informados 1,99% ao mês, não se transformam, com o erro de digitação, em 3,99% a.m.!

"Não exijo transferência" – Ou seja, como meu nome está sujo na praça, faço qualquer coisa para receber o dinheiro da venda, mesmo para ter problemas futuros com detrans e secretarias de fazenda.

Nunca viajou – Busca apresentar veículo com rolar exclusivo em percursos pequenos, como se viagens fosse uso de grande desgaste. Ao contrário. É fria, pois há a se considerar, mil quilômetros rodados na cidade são muito mais desgastantes que se percorridos em estrada. Saiba claramente qual é o percurso habitual do veículo. Se a distância entre a casa e o local de trabalho for curta, mau sinal: o que o motor sequer esquenta e funciona o tempo todo com mistura rica, em clima de folgas e desgastes. Carros assim tem motores com alto desgaste e vida curta.

Pronto para viajar – Esta temeridade é sempre anunciada nas proximidades das férias. Sinceramente, você compraria carro usado e iria direto para a estrada? Se a resposta for positiva, ou és proibitivamente crédulo, ou perigosamente temerário. Se você tem um bom cheque especial, pouco amor à vida e espírito de Indiana Jones... Na melhor das hipóteses deveria ser anunciado na parte de Turismo de Aventura, mas a leitura correta é a seguinte: pegue o seu sonho e vá quebrar longe daqui.

Raridade – Entenda mais ou menos como o verbete Carro de Colecionador.  Significa: não vejo um carro destes há tempos, mas como não entendo de carros antigos, o rótulo parece bom para enganar incautos;

Relíquia – Mesma coisa até porque o adjetivo é amplo.

Sem detalhes – Terminologia da moda, pretendendo significar sinteticamente nada há a fazer, sequer um mínimo. Mesmas palavras em outra vertente, igualmente verdadeira, induz o comprador a achar-se frente ao Rolls, reserva da Rainha da Inglaterra, quando na verdade se trata de um carro pelado, sem opcionais, como o mercado exemplifica o Chevrolet Celta em seu estado máximo de penúria, sem nenhum equipamento.

Traçado – Explicação resumida para dizer ter o veículo tração nas quatro rodas.

Trio elétrico – indica o veículo possuir espelhos, vidros, e trancas das portas com acionamento elétrico;

Único no país – 99,99% de chances em ser informação falsa. Não há controle oficial sobre a frota e seu quantitativo. Às vezes o vendedor é apenas um mal informado querendo valorizar o veículo. Na maioria, um mentiroso instigando a venda;

Zerado – Outra classificação dúbia, aplicada para referir o veículo usado como se estivesse em virginal estado de zero-quilômetro. Às vezes pode embutir sentido inverso — e será descrição honestíssima, o estado é zero — de nada valer.

Este palavreado flexível, dilatável, de sentidos dúbios, não é peculiaridade do mercado de antigos ou usados brasileiros. Maior comércio da especialidade em todo o mundo, graças à sua frota — mais carros nos EUA que gente no Brasil —, e ao enfoque de vê-la como objeto de mobilidade pessoal e não de investimento, também comete atrevimentos. O anúncio abaixo, da Craiglist, poderosa listagem de objetos usados para vender, anda no mesmo caminho. Faço interpretação livre mais abaixo.

A Bit Rusty: Ford Fairlane 500
January 2, 2014 by Josh 32 Comments

“bit rusty and needs some tweaks here And there to be roadworthy, accepting good offer only...no low ballin! OK, OK, ITS A 59 WHAT DO I KNOW!. Forgot to ad that for the full listing price I will throw in a bottle of rust mort and a can of turtle wax.”

Ou seja, mais ou menos o seguinte:
"Um pouco enferrujado e exige uns acertos aqui e ali para estar pronto para rodar. Só aceito boas ofertas. Sem pechincha. Ok, ok, é um carro de 59 pelo que sei. Esqueci de dizer que pelo preço vou passar um anti-ferrugem e dar um bom polimento nele."
 

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